VOCÊ É UM MENINO, MOÇA. E MENINOS NÃO AMAM

rose-with-metal-chain-wallpaper-www-gothicwallz-com

Desde sempre – nos ouvidos do meu inconsciente – minha sociedade sussurra, em alvoroço, seu eco esquecido, de esgoto de fundo de poço. Repete suas verdades empurradas pela alma a puro fel. Isso, como se fossem suas as verdades vindas do céu.
Como o fantasma de uma vítima do mau senso, toda noite me assombram, pra me dizer que meninos não amam.

Contestei com Vinícius, Cartola e Jobim. Percebi, logo de cara, que ela é surda para os fins.

“Sim… – soam as vozes de personalidade insossa – Mas não se engane, moça: de amor só se fala da boca pra fora. Não acredite nos meninos, nos de hoje ou de outrora. Eles pensam com a cabeça errada. Te trocam por qualquer noitada. Não se importam com nada.
Escute nosso conselho, moça – que a sociedade jamais se engana –: traia antes que te traiam; neste mundo é só a mulher que ama.“

Acontece, que, por mera afinidade, descobri-me, eu mesma um quase-menino, na mais tenra idade.

“Ah, então, é assim? Pois bem. Se você quer ser um menino, moça, não pode amar também.
O fundamentalismo é um bumerangue de aço. Tenha certeza de arremessá-lo com força, pra que ele volte e te arranque o braço. Se você acha que pode pensar como um homem, trate de agir como um: não chore. Não se entregue. Minta. Não mergulhe. Negue. E não sinta.”

Minha sociedade me excluiu da vida perfeita. Não achei ruim, confesso; toda vida que eu via era mesmo é malfeita.
Se a mulher ama em se sacrificar, que me permitissem os deuses jamais ser capaz de amar. A entrega à liberdade me estava acima dos outros. Como poderia eu, então, viver de espera? Era como morrer aos poucos.
Me esperavam os meninos, por fim. Mas eles não amam mesmo; não é assim?
Os observados casamentos eram à minha felicidade, nada mais que xingamentos.
Dos amores glorificados pela minha sociedade, eu fugi. Corri. Me escondi.

“Não corra. Te enforcamos com um propósito! … Só, por favor, não morra.
Atenda às expectativas que depositamos em você. Não seja frágil o suficiente a ponto de querer. Pra ser mulher, que é homem, moça, você tem que desaprender a sofrer. “

Aos sentimentos eu renunciei. Não deixei. Não quis. O amor nesse mundo, minha gente, só deixa cicatriz.
Já no mundo virtual, sorrisos do casal. Minha sociedade aplaude sua cumplicidade. Em exaustão. Comenta sua aprovação. Mas eu sei, que o moço sem brilho no olhar, já faz um ano querendo se separar.

„Qual é o problema, moço? Levante sua cabeça! Ela te ama. Pronto. Está feito. Você é o eleito, ora, dê-se por satisfeito! Não importa se o único sinônimo do seu relacionamento é ‚defeito‘.
Sufoque-se sempre, se deixe levar. Você é um menino, moço, não tens o direito de amar.
Se apegue em oração, e esqueça a moça, aquela outra, a que roubou seu coração. Afaste-se dela! Seu universo não pode ser controlado. Logo, tudo o que fizer com ela, moço, já vá sabendo que é errado. Se ela tem prazer em sentir, aposte que ela te engana. Uma moça livre na mente, rapaz, só pode ser leviana.“

Minha sociedade não cede e se excede.
A tudo ela me quis obrigar: a ser correta, moça de bem, esperta; a ser infeliz e a não amar. Por rebeldia e ousadia, decidi que ela não tinha o direito; e na soma de suas hipocrisias, acabou por perder meu respeito.
Ela insiste, me agride. Cega em seu moralismo, perde a cor e não progride.
Me esmurra sua covardia, se vangloria da picardia. Idolatra suas mortas instituições. Seca e afoga condenados corações.
Ela infama, a mim, o menino que ama; pois o assassinato da alma não pode parar:

“Não queremos te ajudar; só aprendemos a julgar.
O fundamentalismo é um bumerangue, moça. E nós não sabemos jogar.”