Discotecas e tudo mais que deveria ter morrido junto com a sua adolescência

Para aqueles que, assim como eu, não sabem mais como se „enquadrar“ na balada! Divirtam-se.
Então, chega aquele momento da vida, onde você tem vinte e quase todos os anos. Dependendo do poder aquisitivo do país onde você se encontra, você ou é uma jovem adulta, ou “ficou pra titia”. Você trabalha. Trabalha. E pensa que a vida não pode ser somente feita de obrigações. Você se lembra, então, das doces horas da adolescência regadas a lágrimas causadas por amores platônicos (e ao pus das suas espinhas, impulsionadas pelos hormônios geradores de amores platônicos), recorda-se do quão animadas e cheias de sonhos eram aquelas madrugadas na balada. E assim, com seus vinte e todos os anos (quase trinta, mas sobre idade não se conversa), você decide, depois de tanto tempo vivendo de seriedade, galerias de arte e barzinhos, retornar à boa e velha discoteca.
Os primeiros problemas aparecem já em se vestir: você se produz até a ponta dos dedinhos dos pés, coloca aquele vestido (graças a Deus um pretinho básico); aquele perdido no canto do armário, que custou uma fortuna e você nunca teve coragem de usar, e percebe, para a sua surpresa, que ele até que fica bem em você; isso catapulta a sua autoestima até o Olimpo e você se sente a própria Afrodite. Bêbada de vontade de viver, e notando que você quase não mostra as curvas adquiridas em horas suadas de academia, você fica confiante de que ir a balada foi mesmo A idéia do ano!

Munida de sorriso de orelha a orelha, um cabelo que brilha mais que fantasia de Madrinha de Bateria, e um salto que te deixa com a altura da Gisele Bündchen (partindo do princípio que você só mede 1.60cm), você está vestida para matar! No caminho do taxi até a entrada da discoteca, você sente que as únicas coisas que vão morrer são os seus pés. Mas, pensa, ainda com aquela animação jovial: “Se eu conseguia dançar nisso aos dezesseis, também consigo hoje!” Então, você sorri para a sua amiga já cambaleante em salto e álcool.
Na porta do local, o segurança com um dente de ouro pede a sua identidade e pisca para você. Naquele momento, você já pensa que aquela talvez não tenha sido a idéia do ano, mas, você ainda está de bom humor. Você sorri educadamente para o cara, e toma as devidas precauções faciais para que o sorriso diga: “Me deixa, que eu não sou suas nega.”
Finalmente, você adentra na discoteca, com o coração pulsante e cheia de belas lembranças na cabeça, que te trazem a esperança de que aquela será sim uma grande noite. Aí, você torce o pé; naquele salto sobre-humano, que poderia servir como prótese de perna para o Capitão Ahab. Neste momento de dor, o seu cérebro volta a funcionar normalmente e treinado como é, ele envia à sua consciência os odores que o seu nariz captou no caminho entre a portaria do local e o bar. O cheiro é indefinido, você conclui; é uma mistura de sabe-se lá o que com vômito e todos os perfumes do mundo. Além disso, você sente as pessoas se esfregando em você. Elas surgem de todo o lado, de frente, de trás, de cima, do chão, do inferno! A música é tão alta, que você não ouve nem os seus pensamentos, nem o barman gritando:
“Você quer o que, minha linda?”
A partir deste instante, vocês são amigos.
E você diz: “Uma mexicana.” Você até pediria duas, mas a sua amiga perdeu-se na multidão.
“É o que?” ele grita de volta.
Você separa sílabas: “Me-xi-ca-na!”
Aí você ganha uma Sambuca. Você não gosta de Sambuca. Você grita de novo:
“Eu pedi uma Mexicana!”
“Ahhhhhhhhh ‘Temo não.”
„Como não tem, eu acabei de ver você encher cinco!”
“Ahhhh, Mexicana?” “É. Mexicana” Neste momento seu sangue já está mais quente do que o de qualquer mexicano.
“Dois Euros.” A revolta te define.
“Mas eu já paguei!”
“Você pagou pela Sambuca, minha linda.”
E agora vocês não são mais amigos.
“MAS ACONTECE QUE EU NÃO QUERIA UMA SAMBUCA!”
Então, entra um cara na sua frente, te lança um olhar que ele pensa ser 43, mas que desperta em você a necessidade de mostrá-lo para que lado fica o banheiro. Ele grita pro barman:
“Três Mexicana.” Ele ganha as três e bebe todas, seguindo a fileira; crente que está abafando.
Você fica boquiaberta, coloca a mão na cintura e forma os lábios para xingar o cara atrás do balcão (com que você tinha flertado, porque ele era um gato, até você perceber que ele era um cachorro.). Ele dá de ombros e grita:
“Foi mal, gata! Era a minha última garrafa.”
Você bebe a Sambuca em um gole só, e percebe que logo, logo, ela vai sai pelo mesmo orifício que entrou. Você sente aquele arrepio do nojo de ter ingerido algo que você detesta, sente a cabeça esquentar e vai para a pista, porque dançar é o que te resta, e lembra, então, do tornozelo torcido. Ele grita, depois grita você.
Você suspira e tosse, porque o cheiro de erva boxeou seus pulmões; seu cérebro e sua visão ficam turvos. A garçonete te empurra. Você vê pessoas se agarrando, você também queria agarrar… mas o pescoço de alguém, e não no sentido sensual da coisa. Por longos vinte minutos, você se esforça ao máximo para se agradar da situação. E desiste.
Sem se divertir, sem paciência e sem amiga, você volta para a casa; coloca a velha calça de moletom, tira a maquiagem, põe as pernas para cima e pensa: “Ah, que linda foi a juventude; e graças a Deus, que ela passou.”

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