Eu não queria ligar, mas liguei

      
       Não, eu não sou fria, a minha mãe acha que eu sou fria, mas não é verdade. É que eu não levo jeito para essas coisas, sabe. Eu não sei como é dizer “meus pêsames”. Que diabos de coisa mais idiota é essa?: “meus pêsames”. Olha, eu sei, por experiência própria, que ninguém gosta de ouvir isso, mas se a gente não fala, o povo reclama. Como é que eu vou saber o que eles querem ouvir? Eu não leio mentes, nem queria, imagina!
       É só pegar a porcaria do telefone e ligar. Eu sei que é assim, mas eu não consigo. Eu acendi um cigarro, mais um do maço da minha amiga. Ela mora comigo, mas viajou, foi visitar a família, coisa que eu nunca faço, porque eu nunca tiro férias. Ela esqueceu a porcaria aqui; eu peguei um e acendi no fogão. 
      Fiquei sacudindo as pernas, sentada no sofá. Era uma tragada, mal dada, porque eu não sei fazer isso, e uma unha que ia embora. Eu olhava para o aparelho e depois olhava para o outro lado. Até que eu liguei. Eu soo bem nervosa, não é? Eu estou nervosa. Sabe quando eu comecei a fumar? Ontem! Quando a minha mãe me falou que… Ai, caramba! Eu nem falei do que se trata, não é? Nem quero falar… Você me perdoa se eu não falar o que aconteceu? Não. É, eu sei que não, eu também não o faria. 
    O problema é que eu tenho medo de tudo. As pessoas confundem o meu medo com indiferença, eu não sou indiferente! Eu me importo com o sentimento alheio, mas eu não sei como lidar com isso. O pior é que isso acontece TODA VEZ! Eu me lembro bem da primeira vez que eu fui a um enterro. Não foi legal, está bem? Eu não gosto de ver pessoas chorando, eu sei lá, daquele jeito… naquele lugar macabro. Aí, uns homens de roupas esquisitas, eu não quero falar mal de coveiros, mas eles me causam arrepios. Detesto esse tipo de cerimônia, situação do comportamento do homem que embrulha o meu estômago. Todo mundo lá, com a bunda no banco da igreja – pode falar bunda aqui? Que se dane! – o finado virou santo de um dia para o outro, ninguém mais tem pecados… todo mundo amigo! Eu fiquei lá observando todos e forçando uma lágrima, mas não saiu nada. 
  Ahhh Eu quero gritar! Eu vou contar do começo, não do começo começo porque aí ia ser uma história muito longa e eu não gosto de falar. Tudo bem, eu gosto de falar, mas não sobre isso. Eu cheguei em casa do trabalho. Eu trabalho igual a uma mula! Daquelas que carregam tudo nas costas. Eu carrego o mundo nas costas, a começar pelo meu chefe, aquele filho de uma mãe preguiçoso, que me deixa fazer o trabalho todo e ganha o mérito e a meleca do dinheiro! Imbecil! Mas esquecendo isso… A minha mãe me ligou. “Tudo bem, filha? “Tudo.” Eu sempre digo que estou bem. “Olha, liga para a sua avó, o seu avô está no hospital. Não está nada bem.” 
     É sempre assim. Muitas pessoas da minha família morreram nos dois últimos anos, uma espécie de praga. A minha mãe fica sabendo da doença, fala pra mim e eu não quero ligar, mas acabo fazendo, e depois sinto um alívio danado quando eles morrem e eu liguei antes. Tudo o que eu não preciso agora é remorso! É isso mesmo! É egoísta, né? Mas você, com certeza, já pensou nisso também, fala a verdade. Mas nesses casos, quem morria era sempre o avô dos outros, nunca o meu. Tudo bem que eu não acreditei que ele estava mesmo muito doente. 
     A minha mãe é exagerada demais e… eu não acreditei, eu não quis acreditar. Eu não levei a sério. Eu não acho a morte uma coisa tão absurda assim e nem o nascimento uma coisa tão linda. A vida é assim: você nasce e aí um dia você morre, porque é como as coisas funcionam mesmo e não tem jeito.
    Não, eu não liguei para a minha avó segundos depois que a minha mãe desligou. Eu fui tomar banho, eu fui comer, eu fui checar os meus e-mails. Mas chegou o momento em que não tinha mais nada “urgente” para fazer. Foi quando eu pensei que a minha avó estaria esperando esse telefonema, esperando que eu quisesse saber como eles estão, eperando pela minha atenção. Mas eu me tornei tão egoísta nesses últimos tempos. Não, sinceramente, a minha avó é muito chata. Não, certo, ela não é chata! Mas ela fala muito da vida dos outros, eu não gosto disso. Detesto gente “fifi”! Por isso eu demoro tanto tempo pra ligar pra ela, e sempre invento uma desculpa esfarrapada, digo que não tenho tempo. Mas todo mundo tem, nem que seja, cinco minutos, mas ninguém toma esse tempo. Eu disquei o número, sem muita vontade, mais “fazendo a minha obrigação” que qualquer outra coisa. “Alô.” Ela soava cansada. Nossa, como ela envelheceu! “Oi, vó. Sou eu.” “Oh, minha querida.” Eu confesso que isso sempre me deixa feliz. 
   

 “Oi, vó. Eu liguei pra saber do vô. Como ele está?” E ela me falou sobre sua condição e sobre o hospital e falou da sua própria osteoporose e perguntou muitas coisas sobre mim. Eu cheguei a falar com o meu avô quando ele acordou. Ele ficou tão alegre em falar comigo que fez com que eu me sentisse um monstro! Depois de alguns minutos eu descobri que eu gostava de conversar com eles e que sentia saudades. Eu desliguei e em alguns minutos todos os bons sentimentos foram apagados pela lembrança do trabalho, pela TV e pelo amanhã. Estranhamente eu não senti a sensação de “missão cumprida” como sempre sinto quando falo com um doente. Antes de eu ir dormir o telefone tocou mais uma vez.

     “Ai, filha… o seu avô…” Eu sabia o que a minha mãe quis dizer, atrapalhada por seus soluços. E como doeu! As minhas pernas bamberam, eu caí no chão e soltei um grito. Quandos meus berros cessaram eu peguei um cigarro e acendi, eu não fumo, mas fumei. Depois disso não sei o que aconteceu, não sei onde o telefone foi parar e nem sei como e quando eu dormi. No outro dia eu não fui trabalhar e o momento de ligar para casa chegou. Eu fumei. É, eu também percebi que fiquei mais calma. É a dor. Sim, eu estive no enterro. Eu participei daquele ritual humano que eu odeio. Eu sentei. Eu chorei como todos eles. Agora você está esperando que eu diga que eu aprendi alguma coisa… 
      Sinto muito te decepcionar, mas eu só fiz a minha parte. Eu não queria ligar, mas liguei.

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